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ENTRETENIMENTO

Adriana Calcanhotto segue os passos de dores pessoais e coletivas na rede modernista do show 'A Mulher do Pau Brasil'

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A Mulher do Pau Brasil desembarcou ontem na terra do índio Araribóia para apresentar o show mais inteligente e modernista feito na República das Bananas neste ano de 2018.
Em turnê pelo Brasil com A Mulher do Pau Brasil, espetáculo estreado em Portugal em abril, Adriana Calcanhotto fez a estreia fluminense do show no Teatro Municipal de Niterói (RJ) – cidade fundada pelo cacique Araribóia (1530 – 1589) – na noite de ontem, 22 de agosto.
Em cartaz até hoje no gracioso teatro niteroiense, A Mulher do Pau Brasil tem o mesmo nome do show apresentado em 1986 pela cantora, compositora e instrumentista gaúcha na cidade natal de Porto Alegre (RS) quando ainda iniciava carreira que ganhou projeção nacional a partir da migração para a cidade do Rio de Janeiro (RJ) em 1989.
Adriana Calcanhotto no show ‘A Mulher do Pau Brasil’
Mauro Ferreira
A semelhança entre o show de 1986 e o de 2018 fica somente no nome e na deglutição do inspirador Manifesto da Poesia Pau Brasil (1924), pilar do movimento modernista brasileiro organizado por nomes como o escritor paulistano Oswald de Andrade (1890 – 1954) na década de 1920.
Em essência, a obra de Calcanhotto é refinado mix de referências desse movimento modernista com a antropofagia tropicalista do movimento pop de 1967 e 1968 orquestrado por Caetano Veloso e Gilberto Gil. Na reinvenção do show A Mulher do Pau Brasil, o modernismo e a Tropicália são devorados em cena pelo filtro da dor do luto vivido por Calcanhotto há três anos com a morte da cineasta carioca Susana de Moraes (1940 – 2015), amor da vida da artista.
Esse amor é alvo da dialética sentimental contida nos versos simples e diretos da canção Outra vez (Isolda, 1977), exemplo da habilidade da cantora para ressignificar sucessos populares de lavras alheias. No caso, um grande hit de Roberto Carlos, cantor amado pela pátria tropicalista.
Adriana Calcanhotto canta ‘Outra vez’ no show ‘A Mulher do Pau Brasil’
Mauro Ferreira
Na costura fina do roteiro, a compositora também atribui novos sentidos no flexível bloco intermediário de voz & violão (de toque rudimentar) a canções do próprio repertório, como Esquadros (Adriana Calcanhotto, 1992) – canção em que aflora a dor da ausência do ser amado – e Inverno (Adriana Calcanhotto e Antonio Cicero, 1994).
No roteiro do luto, Inverno simboliza frio glacial que paralisa emoções diante da perda, temperatura sugerida quando a cantora simula o gesto de sentir frio e sai de cena, ao fim dessa música aquecida com beats eletrônicos, para trocar de figurino.
Nessa mesma temperatura invernal, Calcanhotto lapida Noite de São João (2008), joia melódica construída pelo compositor niteroiense Fred Martins ao musicar poema de Alberto Caeiro, um dos heterônimos do poeta português Fernando Pessoa (1888 – 1935).
Adriana Calcanhotto celebra a ‘geleia geral’ nacional no show ‘A Mulher do Pau Brasil’
Mauro Ferreira
Dominante na cenografia, no figurino e na iluminação do show, o vermelho é a cor quente que acalenta o coração diante do frio paralisante do luto, assunto do primeiro ato do espetáculo em que Calcanhoto divide a cena com metade da formação da banda carioca Tono, personificada nas figuras de Bem Gil e Bruno Di Lullo.
Os músicos se alternam no toque de guitarra, baixo, MPC, piano, baixo e percussão, fazendo a modernista cama instrumental para que Calcanhotto deite confortável na rede de emoções perpassadas ao longo de roteiro que apresenta as músicas inéditas A Mulher do Pau Brasil (Adriana Calcanhotto, 2018) – remontagem do trajeto dessa artista vocacionada para a poesia e a folia – e A dor tem algo de vazio (2018), música composta por Cid Campos a partir da tradução em português, feita por Augusto de Campos, de poema sem título da modernista norte-americana Emily Dickinson (1830 – 1886).
Adriana Calcanhotto canta ‘Mortal loucura’ no show ‘A Mulher do Pau Brasil’
Mauro Ferreira
Trovadora da dor, Calcanhotto segue ritual coreográfico na dança de A dor tem algo de vazio e também cala fundo ao expor o fim da jornada em Mortal loucura (2005), música criada pelo compositor José Miguel Wisnik – a partir de versos barrocos do poeta baiano Gregório de Matos (1636 – 1696) – para a trilha sonora de balé do Grupo Corpo.
Contudo, o grande salto do show A Mulher do Pau Brasil reside na transcendência do âmbito do privado para a esfera pública. Nesse caminhar modernista, Calcanhotto segue os passos de dores pessoais para, na sequência, expor dores coletivas de uma nação em agonia, redesenhada sem qualquer traço idealista pelo arquiteto tropicalista Caetano Veloso em O cu do mundo (1991), abertura do segundo ato dedicado às angústias e padecimentos coletivos.
Adriana Calcanhotto enfrenta a dor do luto no show ‘A mulher do Pau Brasil’
Mauro Ferreira
No banquete antropofágico da Mulher do Pau Brasil, a anfitriã serve iguarias como Vamos comer Caetano (Adriana Calcanhotto, 1998) para preparar o estômago da plateia para o alarme pessimista de Nenhum futuro (João Bosco e Francisco Bosco, 2017) e para a fratura social exposta nos versos corrosivos de As caravanas (Chico Buarque, 2017), música funkeada cujo recado é mais bem dado no canto antenado de Calcanhotto do que na voz do autor.
Sem nunca perder o elo modernista, a Mulher do Pau Brasil recita trechos do poema Escapulário (1925), de Oswald de Andrade, e faz pulsar a veia tropicalista, devidamente paramentada com adereços do movimento, na deglutição apoteótica de Geleia geral (Gilberto Gil e Torquato Neto, 1968).
Adriana Calcanhotto faz pulsar a veia tropicalista no show ‘A Mulher do Pau Brasil’
Mauro Ferreira
No fim, a poeta-trovadora joga a rede – elemento cênico que propicia a engenhosa aparição em cena da artista – e vê alguma saída pela porta entreaberta em Vambora (Adriana Calcanhotto, 1998). No bis, o samba Juízo final (Nelson Cavaquinho e Élcio Soares, 1973) enxerga a luz no fim do túnel da dor, sublinhando com a citação de outro samba, Eu vivo a sorrir (Adriana Calcanhotto, 2011), que a Mulher do Pau Brasil é dura na queda, vencendo a luta contra o luto.
Traço que o rock Eu sou terrível (Roberto Carlos e Erasmo Carlos, 1967) acentua com fina dose de ironia na interpretação e na expressão da artista, que sai com fôlego renovado da caminhada por dores pessoais e coletivas feitas neste show moderno e já instantaneamente antológico. (Cotação: * * * * *)
Adriana Calcanhotto toca violão no show ‘A Mulher do Pau Brasil’
Mauro Ferreira
♪ Eis o roteiro seguido em 22 de agosto de 2018 por Adriana Calcanhotto na estreia fluminense do show A Mulher do Pau Brasil no Teatro Municipal de Niterói:
1. A Mulher do Pau Brasil (Adriana Calcanhotto, 2018)
2. A dor tem algo de vazio (Cid Campos sobre poema de Emily Dickinson traduzido por Augusto de Campos, 2018)
3. Mortal loucura (José Miguel Wisnik sobre poema de Gregório de Matos, 2005)
4. Esquadros (Adriana Calcanhotto, 1992)
5. Noite de São João (Fred Martins sobre poema de Augusto Caeiro, 2007)
6. Inverno (Adriana Calcanhotto e Antonio Cicero, 1994)
7. Seu pensamento (Adriana Calcanhotto e Dé Palmeira, 2008)
8. Outra vez (Isolda, 1977)
9. Devolva-me (Renato Barros e Lilian Knapp, 1966)
10. O cu do mundo (Caetano Veloso, 1991)
11. Vamos comer Caetano (Adriana Calcanhotto, 1998)
12. Nenhum futuro (João Bosco e Francisco Bosco, 2017)
13. As caravanas (Chico Buarque, 2017)
14. Escapulário (Oswald de Andrade, 1925) – Trecho recitado do poema
15. Geleia geral (Gilberto Gil e Torquato Neto, 1968)
16. Vambora (Adriana Calcanhotto, 1998)
Bis:
17. Maresia (Paulo Machado e Antonio Cicero, 1981)
18. Juízo final (Nelson Cavaquinho e Élcio Soares, 1973) – com citação de Eu vivo a sorrir (Adriana Calcanhotto, 2011)
19. Eu sou terrível (Roberto Carlos e Erasmo Carlos, 1967)

Editoria de Arte / G1
Fonte: http://g1.globo.com/dynamo/pop-arte/rss2.xml

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Marcos Morrone

Nascido em São Paulo Capital: Fotógrafo Profissional e Produtor Musical. CEO do Grupo Morrone Comunicações Ltda.

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