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ENTRETENIMENTO

Adulto Esperança

“Quando o homem nasce, é fraco e flexível; quando morre é impassível e duro. Quando uma árvore nasce, é tenra e flexível; quando se torna seca e dura, ela morre. A dureza e a força são atributos da morte; a flexibilidade e a fraqueza são a frescura do ser. Por isso, quem endurece, nunca vencerá…”, Andrei Tarkovisky
Nunca concordei que um programa de TV cuja atração fossem crianças se chamasse “Gente Inocente”.
Crianças não são inocentes. Decifram os mistérios mais profundos do universo com uma sabedoria só comparável a dos idosos.
Coloquem uma criança palestina para brincar com uma israelense. Coloque uma criança filha de pais de esquerda para brincar com uma filha de pais de direita. A criança filha do senhor de engenho com a criança filha de escravos.
Inocentes somos nós, os adultos.
Inocentes porque passamos a ter a inocência que o mundo é binário. Que há um bem imaculado e um mal absoluto. Que não há diferenças. Que não há sutilezas. Inocentes, passamos a ter convicção de que é oito ou oitenta. Preto ou branco, certo ou errado.
Apenas os inocentes têm convicções.
Os sábios têm esperança.
Adoro o nome Criança Esperança.
Ainda mais em tempos que o país, o mundo, está assim, todo convicto, polarizado, arrogante, inocente.
No programa Conversa com Bial, exibido ontem, fomos apresentados a crianças cariocas que moram em áreas de conflito.
As crianças falaram sobre suas rotinas com sabedoria e a leveza que só a sabedoria nos dá.
No sábado, o programa oficial do Criança Esperança foi uma iluminação. Saiu definitivamente o tom de programa musical de auditório com palavras de conforto e esperança e investiu pesado na exposição do problema não da criança, mas dos adultos. Dos brasileiros adultos.
Roteiristas e diretores do programa optaram, como uma sábia criança nada inocente, pelo risco. Ao invés de mostrar o que o público quer ver – diversão, desligamento do cérebro, das questões sociais e políticas que concernem a ele, ou expiação de culpa – optou por tocar nos assuntos que as pessoas da sala de jantar costumam evitar.
Como se quisesse explicar que o problema das crianças brasileiras somos nós, os adultos.
Ao invés de lalalás, tivemos no palco a tristeza de Asa Branca, o clássico de nossa canção, finalmente descoberto como uma canção de refugiados, tocada por uma orquestra de refugiados. Asa Branca, descobrimos, talvez seja a maior canção de refugiados já feita no planeta.
“Quando olhei a terra ardendo qual fogueira de São João, eu perguntei porque tamanha judiação” poderia ter sido dita por um morador de Alepo, Síria, ao fugir da cidade no meio de um bombardeio noturno. Ou por um morador de uma das favelas de São Paulo suspeitamente incendiadas.
Outro momento definitvo do espetáculo de sábado, foi um quadro onde crianças ensinavam seus pais o funcionamento do sistema politico do país. Mirou-se em nossa maior desgraça: o discurso antipolítica, antipolíticos, o “fecha o congresso”, o “traz as forças armadas”.
Lembrou o impiedoso Groucho Marx em “Duck Soup”, abrindo o mapa para planejar uma guerra contra o país vizinho, comentar que o mapa era algo tão simples que uma criança de cinco anos o entenderia e, ao examiná-lo com sua equipe de generais e especialistas, diz: “tragam-me uma criança de cinco anos!”
O Brasil, hoje, é um conjunto de adultos que, mesmo sem nada entender, estão convictos de tudo. O Brasil precisa imediatamente da ajuda de uma criança de cinco anos.
Se a TV Globo interrompesse sua programação e passasse a transmitir apenas este quadro, repetindo-o 24h, por dez dias, resolveria todo o problema do brasileiro com a democracia. Resolveria as próximas eleições, principalmente no que elas têm de mais perigoso, a desatenção do eleitor com as eleições para o legislativo, ainda mais aguda com as eleições locais.
Chamaria-se essa programação extraordinária, essa derivada campanha, de “Adulto Esperança”.
Só adultos inocentes acham que um presidente, e não um projeto coletivo, vá melhorar o país. Resolver o futuro da criança brasileira.
Ao contrário da campanha “Adulto Esperança”, que ainda nem existe, o Criança Esperança vai muito bem. E não se está falando aqui de valores arrecadados em dinheiro. Está-se falando nesse entendimento exibido de que quem também precisa de ajuda e socorro somos nós, espectadores, de o que o público quer ver é, no fim das contas, algo que não se pode cravar, assim, com a nossa típica convicção inocente.
Fala-se aqui é do entendimento de que dar ao espectador a opção de outros modos de formatação e exibição de conteúdo, deixá-lo definir o que é, ou melhor, deixá-lo entender que ele, o respeitável público, está sempre em transformação, o que impossibilita de cravar o que seja, é o que aproxima a TV do futuro.
Porque se o passado é adulto e o presente acabou de nascer, o futuro é uma criança.
Uma criança mais sabida que nós.
Fonte: http://g1.globo.com/dynamo/pop-arte/rss2.xml

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Marcos Morrone

Nascido em São Paulo Capital: Fotógrafo Profissional e Produtor Musical. CEO do Grupo Morrone Comunicações Ltda.

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