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Artista criou um estúdio fotográfico gratuito que registra a vida dos moradores do bairro Zilah Spósito, na região Norte de BH

Permitir-se habitar em outras realidades, viver novas experiências, explorar a diversidade de espaços da cidade e, sobretudo, construir relações afetivas e de cooperação com as pessoas. É o que faz a fotógrafa e arte-educadora Cecília Pederzoli, idealizadora do projeto Zilah Estúdio – Ponto de Encontro da Fotografia. A fotografia é a forma que ela encontrou para vivenciar o cotidiano do bairro Zilah Spósito, convivendo com os moradores e participando do dia a dia do lugar.

Há seis meses executando o projeto, Cecília já registrou gratuitamente cerca de 300 pessoas no estúdio de fotografia localizado no bairro, fotografa eventos da comunidade, vive no local durante três dias da semana, troca experiências e faz amizade com vários moradores.

“É incrível essa imersão que o Zilah Estúdio me proporciona. Os moradores me acolheram, cuidam de mim. Nas sessões fico sabendo de tantas histórias. Infelizmente, muitas tristes. Mães que perderam filhos ou que estão presos. Sinto que esses momentos vivenciados no projeto representam um ‘oásis’ na luta de vida das pessoas daqui. É muito legal ver o semblante de uma pessoa mudar depois de ver o resultado das fotos”, explica Cecília.

Créditos: Euler Conrado

Segundo ela, as intenções do projeto são desenvolver o trabalho de fotografia e aprofundar a relação com a comunidade local que já vinha sendo construída no centro cultural da região por meio de oficinas, realizadas através de editais da prefeitura de Belo Horizonte. Além disso, com a promoção de ações voltadas especificamente para os moradores, o intuito é diminuir a distância simbólica e o preconceito que existe entre esses dois mundos tão próximos: ocupação e bairro.

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Hoje, na região do Zilah Spósito existem três grandes ocupações que, segundo a prefeitura de Belo Horizonte, já podem ser consideradas como bairro. Vitória, a maior do país na luta pela moradia, com 4500 famílias, Rosa Leão, com 1500 famílias, e Zilah Spósito/Helena Greco, com 210 famílias.

Créditos: Euler Conrado

“Nosso projeto inspira-se na estética relacional com o objetivo de promover um espaço (temporário e itinerante) de convivência, interação, aprendizados e trocas a fim de construir – por meio da fotografia – uma sensibilidade coletiva desses espaços: as ocupações urbanas”, comenta Cecília.

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A vendedora Elen Cristina, moradora do bairro há dez anos, resolveu fazer a sessão de fotos, no Zilah Estúdio, junto com a filha Ana Júlia, de 5 anos, por um motivo muito forte. “Eu perdi uma filha de doze anos, mas tive a oportunidade de produzir um álbum dela. São memórias boas que eu guardo da minha menina. Por isso, a Ana Júlia me pediu para tirar fotos dela, assim como a irmã. A fotografia tem essa importância de guardar boas lembranças”. A moradora também afirma que hoje é difícil encontrar a oportunidade de realizar uma sessão de fotos profissional grátis. “Nunca sobra dinheiro para fazermos esse tipo de fotografia mais trabalhada. Fazer imagem no celular não é a mesma coisa”, garante.

Fotografia relacional e a imersão no cotidiano de uma periferia da cidade

O estúdio é um projeto realizado através do Fundo Municipal de Incentivo à Cultura. A premissa é criar uma relação com o lugar e fazer um trabalho que só justifique sua existência graças às relaçõesque são criadas com os moradores e a região.

Além das sessões no estúdio de fotografia, Cecília também percorre o bairro indo até às escolas e à igreja para fazer coberturas fotográficas demandadas pela comunidade, como formandos do EJA (Educação de Jovens e Adultos), procissões, treinos de futebol, entre outros eventos. “Faço um trabalho de divulgação corpo a corpo para as pessoas ficarem sabendo do estúdio. Muita gentenão acredita que o serviço daqui é gratuito”, conta a coordenadora.

Para ela, o projeto trouxe um novo olhar sobre a realidade de uma periferia: “Achei que a fotografia fosse uma questão próxima das pessoas daqui por causa do celular e das redes sociais, mas não foi o que encontrei. A urgência pela sobrevivência, o imediato da vida, evidenciou outras prioridades no cotidiano das pessoas que moram no Zilah”.

Nesses seis meses de trabalho, Cecília afirma que o mais gratificante é ver as pessoas se sentirem mais bonitas e alegres com o resultado das fotografias.

Como encerramento das atividades do Zilah Estúdio, no dia 1º/07/2019, está prevista ainauguração de uma exposição com as fotografias produzidas no período de atividade do estúdio. Além da exposição, posteriormente será feito lançamento deum catálogo de imagens e textos sobre o projeto. A publicação, que terá tiragem de 500 exemplares, vai contar um pouco da história do bairro e como foi o contato da fotógrafa com os moradores locais.

O Zilah Estúdio- Ponto de Encontro da fotografia fica localizado na rua Machado de Assis, nº 740, no bairro Zilah Spósito. Mais informações sobre o projeto nas redes sociais @zilahestudio (facebook ou instagram) ou no telefone 31 99111-6616.

Sobre a Cecília Pederzoli

Fotógrafa e atua como arte-educadora (no campo da fotografia) há 25 anos, tendo realizado oficinas para crianças, jovens e adultos em diferentes projetos em Belo Horizonte e no interior de Minas. Em 2017, participou, com o companheiro de trabalho Alexandre Campos, do projeto Novos Imaginários de Cidade (projeto aprovado pelo edital Descentra/Fundação Municipal de Cultura) que constituiu na realização de uma oficina de fotografia, ilustração e texto no Centro Cultural Zilah Spósito. Além dessa experiência, em 2016, participou do projeto Jovens Urbanos, desenvolvido pelo CENPEC, em uma escola estadual de Santa Luiza que faz divisa com a ocupação Vitória – que existe nesta região da cidade.

Samuel Aguiar

Nascido em Belo Horizonte - MG. Graduando em Ciência da Computação pela Universidade Federal de Minas Gerais e dedicado ao Jornalismo Digital. Programador do Portal Ego Notícias. Entre em contato comigo via e-mail: samuelaguiar12@hotmail.com

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