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Indignação com a repercussão do Notre Dame

Por que a repercussão midiática das doações para o restauro de Notre Dame indignou alguns internautas

Indignação com a repercussão do incêndio em Notre Dame. Segunda-feira, 15 de abril de 2019, internautas de diversas partes do mundo voltaram seu olhar para um assunto comum: o incêndio na Catedral de Notre Dame, em Paris, considerada Patrimônio da Humanidade. Joia do gótico francês, recebe mais de treze milhões de visitantes por ano, teve sua construção iniciada em 1163, sendo concluída dois séculos depois, em 1345.

Em pouco tempo, diversas imagens do incêndio, que começou na parte superior da catedral, a qual passava por obras de restauração, ganharam repercussão midiática mundial. As fotos e vídeos da forma como o fogo se alastrou rapidamente, transformando uma beleza arquitetônica em cinzas gerou grande comoção manifestada em milhões de comentários nas redes, pelo mundo todo. Em menos de 24 horas, as doações de famílias ricas para a restauração de Notre Dame chegaram a 600 milhões de euros.

Embora tal notícia tenha soado como um alívio para alguns, houve diversas manifestações de internautas que se indignaram com tamanha agilidade em se levantar tamanha quantia; já que algo semelhante nunca ocorre em relação às vítimas de catástrofes naturais, como as da África. Para o pesquisador e especialista em imagens, Prof. Dr. Jack Brandão, trata-se de uma falta de contextualização e distinção de cada cenário.

“Dentre as reações negativas à repercussão do incêndio, houve comentários críticos quanto as riquezas da catedral, as quais, na visão de alguns, são desnecessárias. Há uma construção ideológica de que a suntuosidade de belezas arquitetônicas é puramente ostensiva e que se suas riquezas fossem revertidas em valor monetário, este poderia resolver diversos problemas sociais pelo mundo”.

Indignação com a repercussão do Notre Dame - Divulgação
Indignação com a repercussão do Notre Dame – Divulgação

O professor analisa tal afirmação como um grande equívoco; pois, segundo ele, muitas dessas construções como palácios, igrejas e templos são, na realidade, patrimônios da humanidade, não pertencem a esta ou aquela denominação religiosa, nem a este ao aquele Estado.

Foram, inclusive, erguidas antes mesmo que estes existissem. “Veja o caso da Catedral de Notre Dame. Sua relevância vai muito além de questões ligadas à fé. Ela foi cenário da coroação de Napoleão Bonaparte, da beatificação de Joana D’Arc e da coroação de Henrique VI da Inglaterra; passou por atos de vandalismo e roubo de obras de arte e de estátuas durante a Revolução Francesa, entre diversos outros fatores”.

Indignação com a repercussão do Notre Dame

Autor de diversos artigos publicados sobre o poder da imagem, Brandão ressalta que a não imagem também diz muito e que, no caso de construções como a de Notre Dame, é preciso um trabalho de conscientização da sua relevância histórica e que preservá-la nada tem a ver com problemas sociais.

“Com a popularização das mídias sociais, as imagens passaram a perder seu valor muito rápido e, com isso, já não temos mais tempo para absorvê-las… na realidade, nem queremos isso, pois consumimos imagens já pensando nas próximas que estão por vir. Isso porque somos seres iconotrópicos”.

Segundo o pesquisador, toda essa avalanche imagética aliada à falta de conscientização sobre a importância de tais construções impede que muitos deem a elas seu devido valor. “Todos nós possuímos um acervo mental de imagens fotográficas que eu chamo de iconofotológico.

Indignação com a repercussão do Notre Dame - Divulgação
Indignação com a repercussão do Notre Dame – Divulgação

Esse acervo aumenta à medida que absorvemos mais e mais imagens. Quando se critica, por exemplo, a suntuosidade dessas construções é porque, simplesmente, não se tem a compreensão de seu real significado histórico… Ignora-se, assim, todo o complexo processo de sua construção e a visão daquele homem que enxergava, nesse caso, em Deus seu início e fim; revertendo, portanto, tudo a Ele.”

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Brandão ressalta, ainda, que a mobilização para o restauro da Catedral deveria também servir de exemplo para o Brasil. “Em 2018, nosso país sofreu uma perda irreversível com o incêndio no Museu Nacional do Rio que destruiu mais de 20 milhões de itens.

A instituição necessitava de reformas e sofria com orçamento reduzido, resultado do descaso público com a própria identidade nacional e com nossos bens culturais. Infelizmente, só quando acontecem tais fatalidades é que parte da sociedade para e finge enxergar o valor daquele patrimônio.

Isso é lamentável, mas antes tarde do que nunca! Tanto no incêndio de Notre Dame quanto no do Museu Nacional do Rio temos o desaparecimento de parte da história não de um país, mas da própria humanidade”.

Dessa maneira, o Prof. Jack Brandão conclui que preservar a história de uma região não deve ser visto como uma negligência das demais áreas, já que a cultura não é de somenos importância, mas também parte integrante da humanidade.

Sobre o Prof. Dr. Jack Brandão:

Doutor em Literatura pela Universidade de São Paulo (USP), pesquisador sobre a questão imagética em diversos níveis, como nas artes pictográficas, escultóricas e fotográficas. Autor de diversos artigos e livros sobre o tema no Brasil e no exterior. Coordenador do Centro de Estudos Imagéticos CONDES-FOTÓS Imago Lab e editor da Lumen et Virtus, Revista interdisciplinar de Cultura e Imagem.

Mais informações: condesfotosimagolab.com.br

Indignação com a repercussão do Notre Dame

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Rodolfo Bracali

Nascido na Argentina, Rodolfo Bracali mora no Brasil a 19 anos. Como Jornalista. Gerador de Conteúdo, Publicação de Artigos, Apresentador do Programa Momentos no Canal EgoTV. Tudo isso você pode acompanhar nos meus espaços na Web. +55 31- 9 9885-9387 / 9 9714 - 6422 - VIVO - e-mail: rcb539@gmail.com - Skype: Rodolfo.Bracali48 - Belo Horizonte- MG

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